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A sociedade brasileira está viva
Sérgio Haddad

Presidente da Associação Brasileira
de ONGs - ABONG

Nesta semana, a sociedade brasileira acordou mais viva. No seu início, indignada com a impunidade do massacre de Carajás, ao seu meio, marchando pelo direito de protestar, ao seu término, celebrando os vinte anos de luta pela dignidade e anistia dos que disseram não à ditadura militar e sonharam por um mundo melhor.

Cansada de ser desqualificada, de ser chamada de “neoboba”, “atrasada”, de só querer  “nhem-nhem-nhem”, a sociedade brasileira, nesta semana, vem mostrando que ela está viva, olhando e julgando os fatos, agindo.

Absolveram de forma vergonhosa os três graduados oficiais da Polícia Militar do Pará, todos com nome e sobrenome, todos com patentes, todos participantes do massacre de 19 “elementos”, todos sem nome, sobrenome, todos sem terra e sem patente.  Outros 147 PMs serão julgados, talvez algum “elemento”, também sem nome ou sobrenome, algum pobre coitado, algum tão pobre como um sem terra, seja tomado de exemplo, para não dizer que não houve culpado.

Mas a verdade é que a sociedade brasileira iniciou a semana dizendo não. Dizendo não reconhecer a inocência destes três homens, dizendo não à impunidade e à falta de justiça aos que nada têm a não ser a força e a dignidade para lutar por um pedaço de chão.

Seguiu dizendo não à venda do País ao capital internacional. Seguiu marchando para dizer que aquilo que está sendo feito não é bom para o País. Marchando contra uma política econômica que tem produzido o maior número de desempregados que a sociedade brasileira jamais conheceu. A mais elevada dívida externa da história da economia brasileira. O mais alto grau de endividamento interno. O patrimônio público vem sendo vendido, quase todo para o capital internacional, grande parte financiado com o dinheiro da sociedade brasileira. O País produziu menos no último ano, diminui a renda per capita de seus trabalhadores. Contra isso a sociedade brasileira está marchando. Podem ser mil ou cem mil, mas estão marchando contra esta política e a sua base de sustentação. Querem participar sobre seus destinos.

Ao terminar a semana, a sociedade brasileira celebrará o movimento pela anistia que nasceu, ainda no período militar, reconhecendo que aqueles que discordaram do que viam e viviam não poderiam estar impedidos de voltar ao País, ou ficar trancafiados em prisões, ou escondidos como bandidos. Este movimento simbólico de liberdade com efeitos concretos, traduzidos na Lei da Anistia de agosto de 1979,que trouxe de volta o irmão do Henfil e muitos outros que partiram, que abriu prisões e fez reconhecer culpados por perdas de vidas, segue vivo no destino de cobrar justiça e construir esperanças.

Mas podem dizer que a injustiça já foi feita. Que de 20 anos para cá mais de 1800 pessoas foram assassinadas no campo e apenas três responsáveis estão hoje na prisão. Que mil ou cem mil ainda é muito pouco frente à força do capital internacional e das elites que governam o País. Que ainda há muito o que fazer para que o movimento que nasceu há vinte anos com a anistia prossiga até que toda a justiça seja feita, chegando também para a população pobre do nosso país. É verdade! Mas esta semana a sociedade brasileira está mais viva, mostrando sua força e o seu compromisso com a construção de uma sociedade mais justa e livre, mostrando que o caminho a ser traçado não pode ser realizado sem a sua anuência e sua participação.

As ONGs acompanham e participam do movimento da sociedade, particularmente daqueles que nada têm ou são injustiçados, solidarizando-se com suas lutas, indignando-se e denunciando as injustiças, marchando, pensando e agindo em busca de um desenvolvimento sustentável e por um futuro onde a palavra massacre e anistia sejam apenas coisas do passado para todos e todas.

Celebremos a sociedade brasileira que esta semana acordou mais viva.