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Traidoras ou Corajosas? 
 

Fernanda Grigolin
(jornalista, é estagiária em Ciências Sociais na Rede Mulher de Educação)

“Homem casado, que pretende meter a mão no dinheiro alheio, dar golpes financeiros, botar o dinheiro público no bolso, não diga nada a mulher. Não a deixe saber de nada. Faça-o totalmente na moita. Porque esta que dorme a seu lado, pode vir a ser o inimigo, o fator da ruína.” Esse trecho do artigo do jornalista Lustosa da Costa, publicado em abril no site de política “Visão Crítica”, é um exemplo de como a população feminina é retratada pela imprensa brasileira.

A discriminação de gênero é uma prática cotidiana nos meios de comunicação de massa. Em abril, jornais e revistas deram destaque às denúncias da ex-mulher de um dos fiscais cariocas acusados de desviar milhões de dólares do governo do Rio de Janeiro. Mas a notícia principal, para os jornalistas, não era a contribuição que a nova testemunha viria a dar para as investigações e sim a traição feminina. Segundo o jornalista da Visão Crítica, mulheres são fofoqueiras e traiçoeiras e um perigo para os homens. No texto, os quase 35 milhões de dólares roubados e desviados para bancos suíços são secundário, o que importa para ele é a postura da “dedo duro”, que aliás era denominada apenas como ex-mulher do fiscal ou como traidora.

O caso é exemplo de sexismo, do tratamento discriminatório dado às mulheres, que são relacionadas às características como sensibilidade, delicadeza, ou a certas atitudes “maléficas” como vingança e fofocas. Segundo o livro “Redação sem discriminação – Pequeno guia vocabular para evitar as armadilhas do sexismo na linguagem corrente”, a linguagem, principalmente a utilizada nos meios de comunicação não é neutra, é produto cultural da sociedade em que está inserida. Documento escrito pela REPEM, Rede de Educação Popular entre Mulheres, intitulado “Evitemos a Linguagem sexista” expõe que a linguagem é o principal veículo de comunicação humana e reflete as tradições e estruturas sócio-culturais. Um dos exemplos seria o patriarcalismo. “A ideologia patriarcal, que dá superioridade e poder aos homens prevalece em todas as sociedades há mais de cinco mil anos, foi incorporada à nossa linguagem, nas definições dadas às pessoas e coisas e está presente nas estruturas gramaticais.”