Voltar

Afinal, o que é gênero?
Beatriz Cannabrava

Nos últimos anos, temos ouvido falar muito em gênero: as entidades falam em "incorporar a perspectiva de gênero" aos seus projetos, as agências de cooperação internacional passam a exigir que se contemple a dimensão de gênero em todas as propostas que são apresentadas... Mas, afinal, o que é esse tal de gênero?

Para responder a essa pergunta, primeiro precisamos pensar no que é ser homem ou mulher, hoje na sociedade em que vivemos e porque homens e mulheres vivem em condições de desigualdade. Se formos ao início da vida, vemos que as crianças nascem fêmeas ou machos da espécie humana, mas vão sendo criadas, educadas e moldadas segundo aquilo que a sociedade considera próprio para meninos ou meninas.

Sobre as diferenças biológicas de sexo, vão sendo criadas desigualdades sociais que atribuem papéis estereotipados para o masculino e o feminino, nos quais há sempre um desequilíbrio: o papel do homem é sempre mais valorizado do que o papel da mulher.

Nalu Faria e Miriam Nobre, em seu livro "Gênero e Desigualdade" explicam: ... "existe uma divisão entre as esferas pública e privada, sendo que a esfera privada é considerada como o lugar próprio das mulheres, do doméstico, da subjetividade, do cuidado. A esfera pública é considerada como o espaço dos homens, dos iguais, da liberdade do direito".

Seria então um modelo de vida em que os homens trabalham fora e são os provedores e as mulheres só fazem o trabalho doméstico, invisível e desvalorizado. Ao homem caberia a produção – entendida como aquilo que gera diretamente a riqueza, em termos de dinheiro – e à mulher a reprodução: da vida, da força de trabalho e também dos valores vigentes, para que nada mude.

Na verdade, esse modelo de vida só existe para uma parcela pequena da população e que cada vez diminui mais, com a entrada em massa da mulher no mercado de trabalho, conquistando espaço nesse mundo da produção, antes considerado masculino. Em contrapartida, os homens resistem a se incorporar ao mundo da reprodução. Ainda é muito forte a idéia de que a mulher deve ser apenas mãe e dona de casa e que todo o poder de decisão deve estar nas mãos masculinas.

Depois de muitos anos de estudos e lutas das mulheres foi sendo elaborado o conceito de gênero, que é o que busca explicar as relações sociais entre homens e mulheres. Esse conceito foi utilizado como categoria de análise primeiramente pela antropologia, que coloca o "ser mulher" ou "ser homem" como uma construção social. A palavra gênero, tirada da gramática, foi utilizada para identificar essa construção, diferenciando-a do sexo biológico.

Enquanto as diferenças sexuais biológicas são naturais e imutáveis, o gênero é estabelecido por convenções sociais, varia segundo a época e padrões culturais e portanto pode ser modificado.

Em seu trabalho "Sistemas de gênero, redes de atores e uma proposta de formação", editado pela Rede de Educação Popular entre Mulheres da América Latina – REPEM – a antropóloga Jeanine Anderson trabalha com o conceito de sistemas de gênero, ou seja, partindo da premissa que todas as pessoas, e também as organizações, participam de um conjunto de relações de gênero e desde muito cedo são socializadas nesse aspecto. Assim, também reproduzem, muitas vezes inconscientemente, ideologias e práticas sobre as relações de gênero ao longo de sua vida.

E o que seria um sistema de gênero? Segundo Jeanine, é "um conjunto de elementos que incluem formas e padrões de relações sociais, práticas associadas à vida cotidiana, símbolos, costumes, identidades, vestuário, adornos e tratamento do corpo, crenças e argumentos, senso comum e outros elementos que fazem referência, direta ou indiretamente, a uma forma cultural específica de entender e registrar as semelhanças e diferenças entre os gêneros".

Assim, se tomamos como exemplo a sociedade em que vivemos, hoje, no limiar do terceiro milênio, vamos observar que coexistem no mundo, e particularmente no Brasil, inúmeros sistemas de gênero. Se analisarmos as relações sociais entre homens e mulheres no país, veremos que não são as mesmas nas grandes cidades ou nas pequenas cidades do interior, no Sul ou no Nordeste, na zona urbana ou rural e, principalmente, que esses sistemas de gênero vêm sofrendo profundas modificações nas últimas décadas.

Alguns fatores importantes têm colaborado para essas mudanças: a crise econômica que força a inserção cada vez maior da mulher no mercado de trabalho, o aumento crescente das famílias chefiadas por mulheres, a organização das mulheres lutando por uma maior igualdade nas leis e na vida.

É nesse contexto que as mulheres brasileiras conseguem importantes avanços na Constituição de 1988 que considera a maternidade como uma função social, ampliando a licença maternidade e criando a licença paternidade.

Nas últimas décadas, as mulheres têm participado das Conferências Mundiais, de forma organizada, culminando com a Conferência Mundial sobre a Mulher, realizada em 1995 em Beijing, na China. A Plataforma dessa conferência, compromisso assumido pelas organizações governamentais presentes, abordam as iniciativas que devem ser tomadas para promover as mulheres. As entidades e ONGs de mulheres têm desenvolvido desde então atividades para acompanhar a aplicação dessa plataforma.

Hoje em dia, a maioria das ONGs e particularmente as entidades de mulheres e o movimento feminista vêm usando em suas análises e práticas o conceito de gênero o que representou um salto qualitativo na discussão sobre as divisões sociais entre o público e o privado, entre a produção e a reprodução e entre o específico e o geral.

Ao compreender como as relações de gênero estruturam o conjunto das relações sociais, torna-se mais fácil a um grupo ou uma comunidade compreender o sistema de gênero a que pertence e questioná-lo em função de seus objetivos e propostas de crescimento e desenvolvimento.