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Cidadãs de Segunda Classe?
Por
Carina Baladi e Fernanda Grigolin

Carinho, dedicação e vontade foram utilizados para escrever este livro reportagem. As motivações foram as mulheres brasileiras. Mães, Pães, Chefes de Família, que sobrevivem com pouco, às vezes com nada. Sofrem e lutam para manter a casa, filhos e o trabalho. Apresentá – las foi essencial , só que sem a pretensão de criar um diagnóstico conclusivo sobre a situação em que vivem.

Realizamos uma pesquisa prévia, vimos a necessidade de contextualizar o mercado de trabalho e entrevistamos diversos especialistas ligados à questão, como sociólogos, advogados e economistas. Depois, tomando como base dados de institutos como Seade, Dieese e IBGE, constatamos que a maioria das mulheres está no setor informal e inserida no setor de serviços (47,5%).

A pesquisa foi o início e o mais complicado e gratificante viria depois: as personagens. São 12 trabalhadoras entre e 25 a 50 anos, que atuam na cidade de São Paulo e que tem remuneração de até dois salários mínimos (sem levar em consideração a renda advinda de pensão, aposentadoria ou de cônjuges).

Por que Trabalho, Por que Mulheres?


Tratamos do mercado informal por acreditarmos ser tema crucial para se
entender o Brasil da atualidade. Desde os anos 80, o mercado informal e as formas de trabalho em que há subcontratação têm aumentado. Atualmente, metade da população brasileira está nesta situação e são as mulheres as mais prejudicadas pela falta de direitos previstos na Legislação, pela omissão do papel masculino nas tarefas domésticas e pela idéia ainda vigente na sociedade de que a mulher deve ganhar menos que o homem. Portanto, pela relevância do tema em questão, e também pela necessidade de mudanças no quadro empregatício, acreditamos ser necessário um livro- reportagem que aborde este tema. Mas não de forma dura, apenas analisando estatísticas, e sim, um produto que una histórias vividas pelas mulheres na situação de trabalho precário e contenha, ainda, uma contextualização do tema, com entrevistas, pesquisas e citações bibliográficas.
Ouvi-las foi a melhor forma de conhecermos quem faz parte da cidade de São Paulo. Além disso, foi possível saber como a mulher contribui para criar, recriar e manter viva a capital paulista. É ela que cobre o filho, acolhe o parente doente, faz o jantar, comemora uma boa nota da filha, acorda antes de todos da casa, tudo isso para que o dia seja de vitórias. Ela
trabalha 8, 9, 10, 12, 14 horas para que cada sonho seja alcançado. Mães, donas de casa, trabalhadoras informal... são com elas que faremos a nossa viagem.

Bete
Elizabete Aparecida Marciano, ou Bete, como se apresenta, 40 anos, sobrevive vendendo cafezinho no centro de São Paulo. Ela veio do Paraná e vive em um cômodo que tem apenas uma cama. Teve vários (des)encontros amorosos, mas que lhe deram o que mais preza em sua vida: 4 filhos. No entanto, não mora com nenhum deles por não conseguir sustentá-los com a renda de R$ 300 que consegue tirar por mês. Estudou até o fundamental incompleto e antes de ser ambulante, trabalhou como camareira e cozinheira. O maior sonho de Bete é poder ter a família reunida e abrir um restaurante para dar trabalho àqueles
que precisam.

Dorcelina


A pintura em tecido e o crochê são a ocupação atual de Dorcelina Inácio
Garcia, de 37 anos. Ela vende os panos de prato, porta-calcinhas e toalhas
que pinta e borda em algumas feiras. Desse trabalho, consegue mensalmente, uma renda de R$ 300. É casada e tem dois filhos, uma menina de 18 anos e um garoto de 7. Nascida no interior paulista, na cidade de Álvares Florenci, Dorcelina não chegou a completar o ensino fundamental e já foi costureira e rendeira.


Réa


As gêmeas Ana Carolina e Ariadny, de 11 anos, são a razão de Réa Maria da Silva Alcântara trabalhar até 14 horas por dia, costurando calcinhas e
sutiãs. Ela quer dar um futuro melhor para as filhas, quer que façam uma faculdade e tenham mais oportunidades na vida. Rea cuida das meninas sozinha e não se arrepende disso. Cursou até o médio completo e trabalha em uma oficina de costura, onde ganha R$ 400. Há pouco tempo começou a costurar lingerie para vender por conta e espera que este seja o início de um grande sucesso.

Renilde
Uma barraca de doces e salgadinhos montada em frente à escola do filho, além de muita disposição são os instrumentos de trabalho de Renilde Aparecida Dias Affonso, de 46 anos. Casada e mãe de Roberto, de 13 anos, é a única pessoa da casa que trabalha, com uma renda média de R$ 200. Renilde sempre teve o filho por perto enquanto trabalhava: já foi faxineira e babá. Essa preocupação começou quando descobriu que a pessoa que cuidava de Roberto, ainda bebê, batia no menino. Trabalha com a disposição e esperança de que o filho poderá ter uma vida mais tranqüila.

Nena
Em um pequeno espaço entre a cozinha e o corredor que dá acesso a garagem de sua casa, Rosa Helena de Oliveira Bianchi Laud, 44 anos, atende suas clientes e amigas, como ela mesma as
define. É manicure e com o ofício tira uma renda de R$ 300. Completou o ensino básico e é casada e tem três filhos: Cenio, 22 anos, Eder, 19 e Thiago, de 15 anos. Na adolescência, em Ubá (MG), cidade natal, trabalhou em uma fábrica como costureira.


Zezé
Despedida do emprego porque o chefe considerava que mulher não devia trabalhar fora, Maria José Leque de Moraes, 49 anos, viu nas trufas a solução para sair da situação difícil em que se encontrava. Tem no
companheiro, Odair, com quem é casada há 24 anos, o parceiro para a
realização das tarefas. As filhas, de 20 e 18 anos, ajudam na venda dos
doces e é assim que Zezé consegue sua renda, de R$ 400.

Débora
Com duas crianças para criar, uma menina de 4 anos e um garoto de 2, e viúva muito cedo, Débora Cristina de Souza, 29 anos, sobrevive da venda de seu artesanato. Monta a barraca no centro de São Paulo, Praça da Sé, Av. Paulista, ou em alguns eventos, como shows e feiras de artesanato. Estudou até o ensino médio e já foi balconista. Viajou muito e morou no sul do País. Agora, vivendo em São Paulo, aonde nasceu, Débora confecciona os colares e pulseiras ao som de Pink Floyd e Zé Ramalho. Por mês, consegue ganhar de R$ 300 a R$ 400.

Dita
Expedita Maria da Conceição, 38 anos, trabalha como diarista e ganha R$ 350. Veio de Salgueiro, no Pernambuco e está casada há 22 anos. Seu marido não a deixa se arrumar, cortar o cabelo nem sair para festas de aniversário. Mas Dita acha que vale a pena continuar casada por causa dos cinco filhos de 19, 14, 13, 9 e 7 anos.

Selma
A mineira Selma de Castro Barros, de 39 anos, sai todos os dias para
trabalhar com seu carrinho de Yakult e consegue, em média, uma renda de R$ 400. Já foi lavradora, costureira, telefonista e recepcionista e cursou até o médio completo. É mãe de Wellington, de 9 anos e casada com José há 13.


Rhayda
Ráida Carvalho, 50 anos, nasceu em Santo André, ABC paulista, está separada há 6 anos e tem dois filhos: um rapaz de 18 anos que mora com ela, e uma filha casada, de 24. Em seu cartão ela se apresenta como Rhayda, taróloga. Trabalha em feiras da cidade e é a única que sustenta a casa, com uma renda média de R$ 400. Antes de ler oráculos, já foi vitrinista e decoradora.

Luzia
Luzia Bessa do Vale, 40 anos, diz que tem orgulho de ser mulher e acredita que as mulheres já conquistaram muito, desde o direito ao voto e ao orgasmo. Trabalha como camelô, vendendo bijuterias e cosméticos e ganha R$ 300, em média. Sempre atuou na área de vendas, mesmo quando estava no mercado formal e tem o sonho de voltar para sua terra natal, na Paraíba, e abrir um negócio próprio.

Ermelinda


O carinho e respeito dos amigos e marido são o que levam Ermelinda dos
Santos Silva, 40 anos, a continuar a acreditar num futuro melhor. Grávida de seis meses e com hepatite, ela sobrevive como catadora de papelão e
flanelinha na região do Ipiranga. Vinda de Fortaleza (CE), já atuou como
encarregada de limpeza, auxiliar de enfermagem e recepcionista e não chegou a terminar o ensino fundamental. Vive em situação precária, sem água ou luz, e, às vezes, sem comida. Consegue, em média, ganhar R$ 120 por mês.



Enfim...


As conversas que tivemos com as doze personagens nos fizeram entrar em um mundo diferente, onde as dificuldades são outras, a forma de enxergar a vida é distinta da nossa. Isso nos fez enriquecer o olhar e nos deu vivência para futuras empreitadas. Foi percebido, com algumas exceções, que as mulheres abordavam o tema principal, mercado de trabalho, de forma muito similar à dos especialistas. Como, por exemplo, quando percebem que o gênero feminino ainda ganha menos que o homem, ou que após os 40 anos é muito mais difícil conseguir um emprego. Outro ponto relevante é que todas sonham em ter algo próprio, seja a casa ou um comércio, isso sem falar na fé extrema em Deus e a certeza de que Ele saberá recompensá - las no momento e na hora certa. E o que é essencial dizer, muitas são chefes de família e trabalham visando um futuro melhor para os filhos, ainda que tenham que enfrentar a dupla, e às vezes, tripla jornada de trabalho.