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Novas Práticas de Intenção Transformadora

Carmen Tornaría (*)

É importante a sustentação de um movimento como o feminista.
E não é a quantidade o que o define ou lhe dá seu conteúdo específico,
mas principalmente as práticas sociais que origina,
os novos espaços de questionamento que abre
e os processos de consciência que põe em marcha

Julieta Kirkwood

A heterogeneidade é uma das características dos novos movimentos sociais e também do movimento de mulheres que é uma das suas expressões. O respeito à diversidade é um dos desafios que tem que enfrentar no seu interior.

Algumas das coordenadas ideológicas que analisaremos adquirem matizes próprios nas práticas das diversas vertentes mas, de algum modo, formam parte de um tronco comum. A hipótese que sustentamos é que a partir do movimento de mulheres nascem práticas sociais e junto a elas a tentativa de analisá-las que nos levam a revisar velhas categorias, pois a própria realidade apresenta facetas obscurecidas e desvalorizadas pela análise e pela ação política tradicional.

Essas novas práticas questionam a realidade muito além da subordinação das mulheres e apontam, mais que para a transformação da situação específica de subordinação, a um projeto de transformação global da sociedade. Nessa perspectiva, alteram-se os conceitos de democracia, poder, espaços políticos e sujeitos políticos e sociais.

A relação de gênero é a primeira relação de poder vivida pelas pessoas, mesmo antes de perceber que existe opressão e exploração em outros âmbitos. E não envolve apenas as mulheres, mas todas as pessoas. É uma relação de dominação sustentada na divisão sexual do trabalho e se expressa tanto no âmbito público como no privado.

Implica em uma concepção autoritária do relacionamento humano que, além de excluir mais da metade da população da tomada de decisões, empobrece a qualidade de vida. E vai além do sistema político institucional imperante.

As práticas das mulheres organizadas vão questionar os mecanismos que impedem a igualdade entre homens e mulheres. A atividade política das mulheres se converte, segundo Julieta Kirkwood, em uma proposta que tende à negação desses mecanismos:

A pergunta é: isso é fazer política?

Entendemos que sim. Dessa maneira, a atividade política não se reduz à luta pelo poder do Estado. Amplia-se a concepção do que é político ao abranger-se toda a intenção de romper relações reconhecidas como assimétricas. Amplia-se também na medida em que percebemos que o poder não é exercido apenas no domínio público, mas que em todas as dimensões do tecido social existem relações múltiplas de poder.

Foucault nos fala de fios invisíveis cruzando as relações sociais tanto no âmbito público como no privado pessoal. Ao ampliar-se o âmbito do que é político, amplia-se também a noção de sujeito político. Essa perspectiva questiona o papel dos partidos políticos e da vanguarda social como únicos "fazedores" de política.

A família, o bairro, os centros educativos, tornam-se âmbitos de atividade política e, por isso, de transformação. De alguma forma a política deixa de ser um fato exclusivamente estatal para converter-se em um fato social.

Além disso, a noção de política se concretiza, perde abstração e se humaniza quando a reconhecemos em espaços tradicionalmente não legitimados e desvalorizados. Questões como a democratização e a descentralização do estado deixam de ser objetivos planificados pela esfera institucional, para se concretizarem através dos sujeitos envolvidos nessas novas práticas.

As mulheres organizadas, ao discutirem as relações de poder no âmbito cotidiano e ao reconhecerem a problemática da discriminação como uma questão coletiva, vão construindo um questionamento global à maneira de se organizar a sociedade.

As relações conjugais, com as crianças, a sexualidade, a violência, o trabalho doméstico, tornam-se temas políticos. A subjetividade se legitima e se inclui em uma perspectiva de transformação.

O historiador José P. Barrán, encerrava uma palestra sobre a "História da Sensibilidade no Uruguai", dizendo que a maior virtude de uma história que recolhesse práticas sociais até então ignoradas, era converter a história em uma história de todos. O que estamos descrevendo nos leva a afirmar que, nessa perspectiva, a política se converte em questão de todos.

Essa concepção, além de politizar o pessoal, humaniza o público. Isso explica uma das inovações do movimento contemporâneo de mulheres na América Latina : a incorporação das mulheres comuns, donas-de-casa, convertendo-se em sujeitos de transformação. Isso implica em uma revisão de velhos padrões políticos institucionais, pois exige uma profunda confiança na capacidade das pessoas comuns para realizar e pensar, para resolver problemas, para se organizarem e transformarem seu entorno.

A experiência concreta de subordinação e o seu questionamento se convertem em um trampolim para a mudança pessoal e coletiva. A transformação social perde abstração e se inicia a partir de nossa própria individualidade.

A lógica de gênero ajuda a compreender outras lógicas de dominação existentes porque, entre outras coisas, a opressão não se vive em abstrato. Atua sobre mulheres concretas, de idade, situação econômica, cultural e étnica específicas.

A partir do movimento de mulheres, essa consciência de pluralidade para dentro estende-se como pauta ideológica para fora. A lógica de gênero não atua como excludente, mas tende a se articular com as demais lógicas atuantes na sociedade.

Dessa maneira, o panorama político-institucional de muitos países vai se tornando mais complexo: os níveis de obediência político-partidária a decisões tomadas nas cúpulas, a exigência de homogeneidade, o fracasso das tentativas de cooptação e controle do espaço social são sinais de debilidade. Sem negar que existem múltiplos fatores que podem explicar essas mudanças, não descartamos a incidência, muitas vezes ainda fraca e contraditória, do movimento de mulheres.

(*) Extraído de "La Creación de una Nueva Dimensión de la Político a través de las Mujeres" , Ed. Fundación Plemuu, Uruguay, 1990.

Tradução: Beatriz Cannabrava