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Democracia, substantivo feminino
Luiz Weis*

Dizem os médicos - e as estatísticas provam - que a saúde de uma família pode ser avaliada pela saúde da mulher. Faz tempo que os sanitaristas descobriram que, em geral, mas especialmente entre os pobres, se a dona da casa estiver com o organismo em ordem, é provável que o chamado organismo familiar, a começar dos filhos menores, também esteja.

Partindo daí, pode-se apostar - e o Afeganistão e outros menos votados no noticiário não deixam ninguém mentir - que o mesma relação vale para a democracia, para o funcionamento de um sistema social como fator de bem-estar coletivo.

Ou seja, quanto menor for a distância entre homens e mulheres, em matéria de direitos e oportunidades, no sentido pleno desses conceitos, no papel e na prática, tanto mais livre, justa e democrática será uma sociedade.

Dito de outro modo ainda, à parte quaisquer outros fatores que se possam imaginar, quanto mais satisfeita estiver uma população feminina com o seu papel social e com a sua participação na esfera pública - quanto melhor, portanto, for a sua "saúde cívica" - tanto mais integrada deverá estar a população do país, e menos motivos terão os seus habitantes para se hostilizarem uns aos outros.

É possível demonstrar que essa correlação existe, usando o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) construído pelas Nações Unidas, considerado o mais preciso termômetro que já se inventou para medir a qualidade de vida de um povo.

O índice avalia a situação de 174 países, com base em dados sobre expectativa de vida, grau de alfabetização e número de anos de estudo da população adulta, e renda por habitante. A ONU prepara também uma versão do IDH que incorpora as diferenças entre homens e mulheres em cada um desses itens, acrescentando os dados sobre participação das populações masculina e feminina na renda nacional.

Pois bem. Dos dez países que lideram o ranking mundial no IDH - Canadá, França, Noruega, Estados Unidos, Islândia, Finlândia, Holanda, Japão, Nova Zelândia e Suécia - oito também lideram o ranking do que se poderia chamar Idis (Índice de Desenvolvimento da Igualdade Sexual), embora não necessariamente na mesma ordem.

Do primeiro rol, não entram no segundo o Japão das gueixas e dos quimonos e, por motivos insondáveis para este jornalista, a ultra-avançada Holanda, substituídos pela Austrália e a Dinamarca. O Canadá leva o ouro também na segunda modalidade. (O Brasil está no 62º lugar na categoria geral e em 56º na específica.)

Levando o argumento um pouco mais longe, é o caso de dizer que a história da civilização, na acepção primeira dessa palavra - que de modo algum se confunde com as expressões materiais do engenho humano, mas tem tudo a ver com a presença dos valores da civilidade, o respeito recíproco entre os membros de uma população -, é também a história da conquista da eqüidade entre os sexos.

Ou de gênero, como se fala hoje em dia, desde que as feministas americanas resolveram trocar sex por gender. Isso vale para o retrospecto de cada país e para comparar a trajetória de um país com a de outro.

Pelo menos nas democracias onde o Estado fica numa ponta e as igrejas na outra, todos são livres para achar que Deus existe, não existe - ou nenhuma das anteriores.

Mas uma coisa é certa: da mesma forma como aprenderam a usar as religiões que criaram como pretexto para se exterminarem reciprocamente, os homens da espécie também delas se prevaleceram para pôr as mulheres no lugar que acharam devido - o de seres de segunda classe.

A opressão sancionada pela fé atinge o auge, como se sabe, nos fundamentalismos de todos os credos. Mas, nesse departamento, ninguém parece bater os talibans afegãos e os wahabitas da Arábia Saudita.

Os cientistas sociais que perdoem a heresia, mas só mesmo Freud e sua turma para explicar essa mistura patológica de medo e ódio da mulher, que leva os seus algozes, em nome de Deus ou da tradição, a degradarem o espírito e o corpo feminino, com requintes de sadismo, como se diz.

O Taleban proibia que as mulheres fossem atendidas por médicos e as impedia de estudar medicina. Ou de estudar, ponto. A Aliança do Norte que o substituiu em Cabul não chega a tanto, mas impediu outro dia as sem-burkas e com-burkas de fazerem uma passeata até o escritório da ONU para reivindicar os seus direitos elementares - o de trabalhar, por exemplo.

O dia em que elas os conquistarem, o Afeganistão, parafraseando Millor Fernandes, correrá o sério risco de cair numa democracia.

* Luiz Weis é jornalista, editor do site Werbo e autor, com Maria Hermínia Tavares de Almeida, de “Carro-zero e pau-de-arara: o cotidiano da oposição de classe média ao regime militar”, in História da Vida Privada no Brasil, volume 4 (Companhia das Letras, 1998).

Artigo publicado no site Werbo. Publicado também no Jornal da Tarde.