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O que há para se enxergar?
Patrícia Badari

Diante do mal que assola uma família – a cegueira - como o destino mais radical ao qual o sujeito não poderá escapar, vemos desenrolar no filme “Dançando no escuro” de Lars Von Trier o que poderia ser uma tragédia da Grécia Antiga que termina, via de regra, em acontecimentos fatais.

Selma, a personagem central ou a heroína, se assim quisermos, contamina Gene, o filho, com sua carga genética, transmitindo-lhe um problema na visão e é capaz de infundir terror e piedade perante os infortúnios que lhe ocorrem.

A música e a dança no filme, assim como na tragédia, têm o caráter de apaziguamento, pois concedem ao sujeito Selma um prazer, tirando-a da extenuante vida de operária de uma linha de montagem e da escuridão na qual vive por ser cega, remetendo-lhe ao fabuloso mundo de brilhos dos musicais. No entanto, se a música e a dança são usadas como um anteparo à angústia, são, também, o que reenvia Selma, apesar de sua cegueira hereditária, ao que há para se enxergar.

São os sons das máquinas da fábrica onde trabalha, do trem sobre os trilhos que lhe indicam o caminho para casa, os passos dos sapateado ou os passos para sua sentença de morte que lhe guiam ao seu destino.

“(...) Eu já vi tudo

Eu vi a escuridão

Eu vi a luminosidade de uma pequena faísca

Eu vi o que escolhi ver (...).”

(Track 3, Bjork e Thom Yorke)

 

Selma, personagem de Bjork, é uma mulher que tem um problema hereditário na visão e vem da República Tcheca para a América, Estados Unidos, onde irá trabalhar e reunir o dinheiro necessário para a operação de olhos do seu filho Gene.

Gene porta a herança familiar, uma doença na visão e, se não for feita a cirurgia aos 13 anos, terá como conseqüência a cegueira.

A mãe é a responsável pela transmissão dessa herança e não se furta de suas responsabilidades e das conseqüências de ter ultrapassado o limite da vida, ao decidir ter um filho. Há um sujeito é dada a vida: nascer, viver e morrer seja em um segundo, algumas horas, alguns dias, meses ou anos. Este é o limite da vida, todos os seres humanos são mortais e portadores da castração e as escolhas implicam em ir além deste limite e as perdas lhe são inerentes.

Quando Selma é perguntada porque o teve, se sabia que Gene teria a mesma doença, responde: “Eu só queria segurar um bebê em meus braços”. É justamente nesse lugar de escolha do sujeito que vemos a radicalidade de seu destino, a morte, vivida de forma antecipada. Pois, se o momento de satisfação para Selma era “segurar um bebê em seus braços” há um resto daí decorrente, a cegueira hereditária, a marca de uma castração que lhe é inerente e que surge em sua função estrutural – apresentando ao sujeito o vazio de sua natureza humana.

Diante da escolha: segurar um bebê em seus braços ou a vida sem segurar um bebê, não havia como escapar de seu destino, pois a morte já nos é desde sempre anunciada. Em algum momento, que não este, a castração se faria enxergar.

Por isso, trabalhou como operária em uma fábrica e em trabalhos extras, tirando parte de seus ganhos somente para sua subsistência e de seu filho. Não podia namorar: não cederia seu tempo de trabalho para o amor. Não dava coisas caras para seu filho, como por exemplo, uma bicicleta: “não era esse tipo de mãe”. Seu instante de amor já lhe foi concedido ao “segurar um bebê em seus braços” e era preciso arcar com suas conseqüências.

Reuniu o dinheiro para a cirurgia do filho. Trabalhou até ficar cega, matou quem lhe roubou o dinheiro para a cirurgia de Gene e não se furtou de sua sentença de morte. Poderia ter se defendido e não seria condenada a pena de morte. Era possível justificar seu crime, o assassinato; utilizar o dinheiro da cirurgia de Gene para contratar um advogado que lhe defendesse... Sempre caberia uma justificativa que lhe absolveria. Uma nova significação que prende o sujeito em sua ficção é sempre possível, pois alivia e o tira de suas responsabilidades.

No entanto, o que era uma verdade: o destino certo para aquela família – a cegueira - pôde tomar valor de ficção, o sujeito não precisou transformar a história familiar em sua tragédia individual.

Selma não abdicou de sua responsabilidade: Gene não precisou padecer devido ao gozo de sua mãe. Se ela quis “segurar um bebê em seus braços”, não o fixou como objeto de sua satisfação. Gene foi liberado para escrever seu destino e construir seu arcabouço simbólico, não sendo encerrado na herança familiar.

 

“(...) Você fez o que devia ter feito!

O tempo que leva para uma lágrima cair

Para um coração ficar descompassado

Para uma cobra mudar de pele

Para crescer um espinho numa rosa

É o tempo necessário (...).”

(Track 4, Bjork)

 

Selma ao fazer o que devia ser feito, neste ato, os tira do destino cego que lhe eram reservados, permitindo-lhes a criação de suas próprias significações. Aquilo que dizia respeito a uma transmissão biológica, (a cegueira, designada como hereditária) e que poderia fixar esta família em um modo de organização em torno dela pôde deixar de ser o destino familiar a ser seguido.

A cirurgia - a visão é a via aberta ao seu filho e o tempo necessário para que ele trace seu destino será cronometrado por ele. Selma fez o que devia ter feito e os sons da fábrica, os sapateados, o barulho da ventilação, os passos, as canções, os musicais foram a via para traçar um risco diferente ao de sua herança familiar.

A cegueira pode ser uma maldição familiar e levar o sujeito a seguir os caminhos que o conduzem a este destino trágico. Uma doença hereditária pode fixar e servir de sustentáculo, mas pode ser um destino contingencial se um sujeito puder ver o que há para se enxergar.

 

“Dizem que é a última canção

Mas eles não nos conhecem

Só será a última canção

Se deixarmos que seja.”

(Track 7, Bjork)

 

Apesar da impossibilidade do olhar, há muito para se enxergar. É possível “dançar no escuro”, cada um pode compor o traçado de sua própria coreografia, seus sons, suas visões dentro ou fora de foco e, assim, se encaminhar para um destino que não é da ordem de uma contingência, mas sim radical. Esta é a condição!