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Sociedade Civil amplia luta
contra os transgênicos

 

  • O papel fundamental das mulheres rurais

  • O significado do perigo

  • A importância da luta local para o fortalecimento global

Os transgênicos têm tudo
a ver com as trabalhoras rurais

Por iniciativa da Campanha por um Brasil Livre de Transgênicos foi realizado um seminário com cerca de quarenta lideranças das trabalhadoras rurais de todo o país, visando clarificar este importante tema e conscientizar sobre o papel fundamental das mulheres no fortalecimento da difícil resistência contra a liberação dos transgênicos (que são organismos geneticamente modificados - OGMs), para preservar a vida humana, o meio ambiente e a autonomia agrícola. Financiado por Action Aid, Novib e Oxfam e realizado no período de 28 a 30 de maio, no Rio, o seminário Transgênicos - o que tem a ver com as trabalhadoras rurais?, coordenado pelo Esplar, Fase e Sof, propiciou discussões profundas e articulação de ações comuns. Os trabalhos foram subsidiados pelas palestras de Maria José Guazzelli (do Centro Ecológico de Ipê/RS), Sezifredo Paz (do Idec), Maria Emília Pacheco (da Fase), Míriam Nobre (da Sof), Fátima Oliveira (da Univesidade Fe-deral de Minas Gerais) e Magnólia Said (do Esplar). As lideranças rurais aumentaram a consciência da importância estratégica de intensificar a luta no campo, para que prevaleça a resistência do Brasil - único dos quatro maiores produtores de sementes do mundo onde os transgênicos continuam proibidos -, em defesa de um projeto alternativo e sustentável. Leia, abaixo, informações destacadas nas palestras:

  • As mulheres inventaram a agricultura, aprendendo a selecionar as plantas para garantir uma alimentação saudável.

  • O Brasil é um dos quatro maiores produtores de sementes, com presença expressiva de mulheres na agricultura, exercendo, assim, um papel importante contra os transgênicos. Os outros três países, Estados Unidos, Canadá e Argentina, já liberaram a produção de transgênicos. Todos os países que temem os efeitos desastrosos dos transgênicos para a saúde e o meio-ambiente estão colocando muitas esperanças na resistência brasileira.

  • As sementes transgênicas são patenteadas, quer dizer, pertencem a cerca de seis empresas multinacionais da área farmacêutica/química, as mesmas que fabricam agrotóxicos (como a Monsanto e a  Novartis). Com isso, quem trabalha na terra vai precisar comprar as sementes dessas empresas e não pode vendê-las, a não ser que pague caro.

  • Há um pacto perverso: que visa atender aos interesses dos poderosos; um pacto de omissão: por parte das autoridades e dos cientistas; e um pacto de mediocridade: entre os órgãos governamentais.

  • As mulheres têm importância fundamental na agricultura e no sistema alimentar. É uma luta que precisa de muita união, para deter o projeto de agricultura dominante, que é regido pela lógica comercial, com predominância da manipulação e do monopólio da vida. Com isso, as mulheres estarão fortalecendo o projeto de agricultura sustentável, que leva em conta a lógica da vida, da biodiversidade e da diversidade social/cultural.

  • As mulheres têm grande destaque nessa luta: na produção e no consumo, duas esferas que devem estar interligadas. São as mulheres  que decidem o que consumir. Se as prateleiras de produtos transgênicos não se esvaziarem, os produtores serão barrados.

 

Entendendo os termos e o
significado do perigo para a vida

O QUE SÃO ALIMENTOS TRANSGÊNICOS?

São criados em laboratórios com a utilização de genes de espécies diferentes de animais, vegetais ou micróbios. A nova tecnologia permite, por exemplo, introduzir um gene humano em um porco; ou um gene de rato, de peixe, de bactéria ou de vírus em espécies de arroz, soja, milho ou trigo. O resultado é um produto transgênico.

Só de olhar não dá  para perceber a diferença entre um alimento  natural e um transgênico. A engenharia genética, tecnologia aplicada na criação de produtos transgênicos, pode trazer benefícios para a população, como na produção de medicamentos, por exemplo. Antes de ser aprovado para uso, o produto é submetido a rigorosos testes, para garantir que é seguro. O grave problema é que isso não vem acontecendo com os alimentos. 

Os produtos transgênicos podem fazer mal a nossa saúde e prejudicar o meio-ambiente. Quando se insere um gene de um ser em outro, novos compostos são formados nesse novo organismo, como proteínas e aminoácidos. Se este organismo modificado geneticamente for um alimento, seu consumo pode:

  • Desencadear processos alérgicos em massa;

  • Aumentar a resistência aos antibióticos, quer dizer, pode reduzir ou anular a eficácia dos remédios à base de antibióticos, o que é uma série ameaça à saúde pública;

  • Aumentar as substâncias tóxicas: existem plantas e micróbios que possuem substâncias tóxicas para se defender de seus inimigos naturais, os insetos, por exemplo. Na maioria das vezes, não fazem mal ao ser humano. No entanto, se o gene de uma dessas plantas ou de um desses micróbios for utilizado em um alimento, é possível que o nível dessas toxinas escape do controle e cause mal a pessoas, a insetos benéficos e a outros animais. Isso já foi constatado com o milho transgênico Bt, que pode matar lagartas de uma espécie de borboleta, a borboleta monarca, que é o agente polinizador (que tem a importante função de fecundar os óvulos);

  • Provocar o desequilíbrio do meio-ambiente: ao colocar genes de resistência a agrotóxicos em certos produtos transgênicos, as pragas e as ervas-daninhas poderão desenvolver a mesma resistência, tornando-se superpragas. Isto vai exigir a aplicação de maiores quantidades de veneno nas plantações, resultando no aumento de resíduos nos alimentos que comemos, poluindo rios e solos, e prejudicando ainda mais o equilíbrio do meio-ambiente.

É mentira que as sementes transgênicas vão aumentar a produção de alimentos e ‘matar a fome no mundo’, pois um pequeno e poderoso grupo vai ser dono das sementes, aumentando a dependência dos pobres e acabando com a diversidade das sementes. A semente transgênica possui o terminator, o que significa que ela é plantada uma só vez e depois morre. Além disso, fica proibida a venda das sementes adquiridas, a não ser que se pague para os ‘donos poderosos’. Esse é um modelo cruel e perverso de agricultura. Este argumento é mais do que suficiente para que lutemos contra os transgênicos. Está mais do que claro que a eliminação das fronteiras entre as espécies vai provocar profundas conseqüências biológicas, sociais, políticas e econômicas.

A revista New Scientist, de 26/05/01, alerta: “as reais engrenagens dessa revolução são as companhias. E o seu interesse será criar porcos de crescimento rápido para grandes fazendeiros, não animais que resistam a parasitas no mundo em desenvolvimento. Antes de decidir se superporcos ou galinhas mutantes são bons ou não, convém perguntar quem vai tomar conta da granja.” E no caso das sementes transgênicas, a pergunta é a mesma: quem vai tomar conta da plantação?

Você tem o poder de fortalecer a Campanha Nacional por um Brasil Livre de Transgênicos

    A Campanha, que começou em 1999, é composta por um número cada vez maior de pessoas e instituições da sociedade civil, com dois grandes objetivos: 1) proibir o cultivo, a comercialização e o consumo de sementes transgênicas; 2) defender um projeto ecológico. Os eixos estão voltados para a dinamização e mobilização, ações no campo legislativo e judiciário, e esclarecimento à população.

  • Você pode fortalecer esta Campanha, através de pequenas ações locais que vão se juntar à grandiosidade coletiva desta luta. Aqui vão algumas sugestões:

  • Levar o tema para as pautas dos diferentes movimentos, grupos, associações, igrejas e partidos políticos (lembre-se que em 2002 haverá eleições).

  • Juntar entidades do mesmo Estado que já estejam trabalhando o tema.

  • Fiscalizar a merenda das creches/escolas e a dieta dos hospitais, denunciando os casos em que se utilize produtos transgênicos. Denunciar, também, os comerciantes que estejam vendendo produtos transgênicos. Procure a mídia local ou os políticos de confiança.

  • Escrever artigos para os jornais locais, participar de programas de rádio e TV.

  • Realizar atos em datas importantes do calendário nacional (como 1o.de maio ou 7 de setembro), com faixas, camisetas, adesivos etc.
  • Contatar entidades de defesa do consumidor, existentes em quase todos os Estados (informações com o Fórum Nacional das Entidades Civis de Defesa do Consumidor - que é presidido pelo Idec -, através do telefone (11)3675-0833 - Carlota Costa).

  • Emplementar a produção diversificada (cultivo de várias plantas).

  • Estimular a criação de casas de sementes.

  • Exigir condições concretas de crédito para as mulheres.

  • Desencadear ações de resistência resgatando o saber da mulher na agricultura.

  • Lutar pela inclusão das mulheres nos processos de decisão.
  • Voltar as ações locais para um trabalho em rede, visando contemplar todas as etapas do processo de produção/comercialização/consumo (rede de socioeconômica solidária), com interação campo e cidade, de região para região.

  • Multiplicar o material da Campanha, que pode ser obtido através do telefone (21) 253-8317 ou do correio eletrônico campanhatransg@uol.com.br

  • Comunicar todas as ações para a coordenação da Campanha, para que sejam divulgadas conjuntamente.
  • A Campanha é apoiada por Action Aid, Novib, Oxfam-Brasil e Cese.

    C U I D A D O !  

    Estes produtos contêm transgênicos
     

  • Nestogeno com soja (Nestlé/Brasil)

  • Ovomaltine cereais e fibras (Novartis)

  • Mistura para bolo de chocolate (Sadia)

  • Sopão de Galinha (Knorr)

  • Creme de Milho Verde Knorr (Ref.Milho Brasil)

  • Sopão de Galinha Pokemón (Arisko)

  • Pringles - batata frita (Procter and Gamble)

  • Broinha de Milho Yoki (Yoki/Brasil)

  • Cup Noodles (Nissin-Ajinomoto/EUA)

  • ProSobee Preparo Instantâneo(Bristol Myers Squibb/EUA)

  • In Natura - Mistura de Cereais (AUF Natur/Brasil)

  • Aptamil (Support Produtos Nutricionais/Argentina)

  • Supra Soy Integral (Joaquim Oliveira/Bélgica)

  • BaCOs - cobertura para saladas (Gourmant Alimentos)
  •  

* Transgênicos são organismos geneticamente modificados (OGMs), que podem causar sérios males à saúde e ao meio-ambiente.

Fontes: Este encarte foi elaborado por Vera Vieira, a partir de informações dos materiais duvulgados pela Campanha Nacional Por um Brasil Livre de Transgênicos, do Seminário Transgênicos - o que tem a ver com as trabalhadoras rurais? e do site www.idec.org.br

 

Reflexões a partir de alguns dados e experiências com Alimentação Viva e Enriquecida

Apresentação feita por Maria Ruth Freitas Takahashi na Oficina promovida pelo GT Gênero de Novib realizada em São Paulo

Hoje já se sabe que a qualidade de vida está diretamente relacionada com a qualidade da alimentação, e que a maioria das doenças da nossa civilização estão relacionadas a nossa forma de nos alimentar.

Pensar sobre Segurança alimentar é refletir sobre o processo de produção dos alimentos e sua qualidade da roça à mesa. Isto pressupõe um processo de produção ambientalmente correto, de preferencia orgânica e não transgênica e uma forma de distribuição dos gêneros alimentícios que garanta o acesso à alimentação por parte de toda população.

 

A mulher e a alimentação

Historicamente a mulher desempenha um papel fundamental na alimentação da família:

  • As mulheres produzem mais da metade de todos os alimentos cultivados;
  • Em muitas regiões, as mulheres dedicam até cinco horas do dia pra recolher lenha e água e até quatro para preparar os alimentos;
  • Desde os anos sessenta, o numero de mulheres que vivem abaixo da linha de pobreza aumentou 50%, em comparação com os 30% dos homens.
  • Mais de 70% dos 1300 milhões de pessoas pobres do mundo são as mulheres e as meninas.
  • As mulheres não recebem mais de 5% dos recursos.

Os princípios da sustentabilidade das mulheres em função da alimentação para todos, que o movimento das mulheres sistematizou na plataforma mundial da Segurança Alimentar são:

  • Localização e descentralização, em lugar de globalização e centralização da produção e da distribuição;
  • Pacifismo, em lugar de atividades agressivas de dominação.
  • Reciprocidade e igualdade, em lugar de competição.
  • Respeito à integridade da natureza e suas espécies;
  • Seres humanos como integrantes e não dominadores da natureza;
  • Proteção da diversidade biológica e cultural, na produção e consumo;
  • Suficiência, em lugar de crescimento permanente.
  • Auto abastecimento, ao invés de comercio global.

Este cuidado com o preparo da alimentação requer hoje de toda a família um maior tempo para esta tarefa e o grande desafio para a mulher será como garantir melhor qualidade, sem novamente reassumir sozinha as responsabilidades domesticas na produção de uma alimentação mais saudável.

 

O que é alimentação enriquecida?

A alimentação enriquecida é aquela que combina vários alimentos, principalmente as partes mais nutritivas fazendo um aproveitamento integral deles. Pressupõe um acesso à informação sobre qualidade, valor nutritivo de cada alimento, forma de preparar e de consumir de forma que se preserve esta qualidade. É uma forma de preparar o alimento adequado para qualquer ser humano.

O enriquecimento de alimentos ou o oferecimento de alimentação enriquecida constitui-se num procedimento usualmente associado ao combate à desnutrição infantil severa, sobretudo por sua característica de ser um instrumento de resposta rápida. No entanto, o campo de aplicação deste procedimento pode ser bem mais amplo e envolver diversos aspectos das práticas alimentares habituais das famílias e dos programas de alimentação e nutrição encaminhados pelo poder público.

Baseado no princípio de que a qualidade na alimentação é dada pela variedade e não pela quantidade, desenvolveu-se ao longo das duas últimas décadas, toda uma tecnologia simplificada em nutrição que estimula o uso de produtos regionais e, principalmente de partes não convencionais dos alimentos.

A concepção de alimentação propiciada por essas alternativas alimentares têm as seguintes características:

  1. Baixo custo
  2. Fácil preparo
  3. Paladar regionalizado
  4. Alto valor nutritivo
  5. Estimulo da autonomia da própria população para o combate à fome

O acesso é facilitado pelo fato de que essa qualidade é encontrada nos fundos de quintais, em folhas de hortaliças antes desprezadas, ervas daninhas, sementes pouco conhecidas e resíduos das usinas de beneficiamento de arroz e trigo.

A produção desses complementos nutricionais – farelos, pós de folhas, sementes é feita através de uma tecnologia muito fácil e de amplo conhecimento: selecionar, moer, tostar e peneirar os ingredientes que a compõem, podendo ser feita individualmente ou em regime de mutirão numa comunidade.

Através de uma combinação de alimentos a mais diversificada possível, ou seja, da multimistura, consegue-se aproveitar toda a potencialidade nutritiva dos alimentos. Segundo o conceito da multimistura, é mais nutritivo usar menor quantidade e maior variedade, pois alimentos diferentes oferecem uma riqueza maior de nutrientes e maior possibilidade de balanceamento. A multimistura, farinha enriquecida ou farinha múltipla como vem sendo chamado esse tipo de complemento alimentar é produzida a partir da mistura balanceada de componentes normalmente desperdiçados tais como: farelos de arroz e trigo tostados, pós de folha de mandioca, batata doce e abóbora, e pós de sementes de abóbora, melancia, melão, girassol, castanhas, gergelim, amendoim.

Segundo seus responsáveis, a utilização da multimistura se dá a partir de um conceito amplo de alimentação que resgata práticas tradicionais e trabalha com produtos locais e não convencionais, desde a ótica da "alimentação completa".

Este tipo de trabalho pode defrontar-se com o preconceito alimentar pelo fato da utilização de produtos não convencionais, mesmo que presentes na região, sugerir que se trata de oferecer "comida de pobre". Acrescente-se, ainda, o risco de estar criando uma cidadania alimentar de segunda categoria, em contraste com a alimentação dos ricos baseada em produtos mais nobres. A este respeito, a Pastoral da Criança procura demonstrar que a proposta não é dirigida apenas aos pobres, visando reduzir o custo da alimentação no orçamento. Mesmo crianças e adultos com um alto nível de consumo, sofrem deficiências principalmente de micronutrientes, em função do superprocessamento industrial dos alimentos, criando hábitos indesejáveis e conseqüências visíveis na saúde – as chamadas doenças da civilização: obesidade, alergias, diabetes, reumatismo, câncer, cálculo renal, infarto, derrame, etc.

Segundo a Pastoral, a metodologia de reeducação alimentar empregada é facilitada pelo fato de que tudo é tirado da experiência vivida pelas famílias e de que procuram meios de enriquecer aquilo que a mãe ou os familiares gostam de comer.

Ligado ao anterior, coloca-se a necessidade de acompanhar como se instala na família o novo hábito alimentar e de verificar se ele permanece. Estas e outras questões são contempladas pela metodologia participativa utilizada pela Pastoral da Criança voltada à formação de líderes comunitários para atuar com as mães. Assim, há um número pequeno de líderes que participam do dia-a-dia das comunidades e estão próximos das famílias, sendo os responsáveis por fazer o acompanhamento do trabalho em seus diversos aspectos, reunindo-se mensalmente para avaliá-lo.

A Pastoral dispõe, ademais, de um sistema de informação e acompanhamento com indicadores de impacto. Os resultados obtidos nos 15 anos de atuação revelaram um crescimento mais saudável da criança dentro e fora do útero, uma maior resistência a infecções, a prevenção e cura da anemia nutricional e a diminuição de doenças diarréicas e respiratórias. A queda na mortalidade infantil verificada no período de 1994 a 1997 foi de 43%; no caso específico de Piracicaba (SP) apresentado no painel, o índice de desnutrição infantil reduziu-se de 47,3% para 3,8% e o de mortalidade de 13,2% para 1,3% da população atendida. Segundo seus responsáveis, o custo mensal estimado das ações é de R$ 1,00/criança, de modo que os gastos totais anuais da Pastoral da Criança corresponderiam a 108 dias de um único hospital federal.

A formulação da multimistura é feita em articulação com institutos de pesquisa como a Embrapa. Contudo, registrou-se a relativa ausência de pesquisas e de informações disponíveis sobre plantas consideradas ervas daninhas, mas que podem ser comestíveis ou ter uso medicinal, fato particularmente grave em face da riqueza do país em biodiversidade. O controle de qualidade do trabalho da Pastoral é realizado por uma equipe capacitada por técnicos para executá-lo.

Não obstante, há profissionais da saúde que são contra a utilização da "multimistura" e, inclusive, das plantas medicinas –que também integram o trabalho da Pastoral - como substitutas do tratamento medicamentoso dos pediatras. Segundo as dirigentes da Pastoral, a resistência inicial dos pediatras foi se modificando com a evolução do trabalho e com a melhoria apresentada pelas crianças, de modo que os têm, hoje, como parceiros na grande maioria das iniciativas.

 

A alimentação enriquecida como política pública

O projeto de alimentação enriquecida desenvolvido pelo Instituto PÓLIS faz parte de suas atividades na área de segurança alimentar e guarda proximidade com o enfoque da Pastoral da Criança, porém, visando introduzir a alimentação enriquecida diretamente como um componente de política pública municipal de segurança alimentar. A estratégia adotada é a de utilizar o aproveitamento integral dos alimentos e a farinha enriquecida na alimentação escolar oferecida pelos municípios. O projeto foi iniciado em 1994 em Rio Branco (AC), sendo posteriormente aplicado em Apucarana (PR) e, atualmente, em Ribeirão Pires na Região Metropolitana da Grande S. Paulo.

Na experiência em Rio Branco foram utilizados produtos da Amazônia (pupunha, castanha, macaxeira, milho e arroz) e uma ação articulada com dois programas da Prefeitura Municipal, o de geração de emprego e renda e o de valorização dos produtos da floresta (FLORA). No caso de Apucarana foram:

  • Atendidas 13 mil crianças através do enriquecimento da alimentação escolar.

Junto à Casa de Farinha, foi construída uma padaria comunitária onde pães, bolos e doces foram também enriquecidos. Além disso, um ônibus tornado "escola volante", equipado com uma cozinha dentro, passou a dar cursos para mães e associações de bairro, na periferia do município.

Esse projeto do Paraná foi um dos vencedores do concurso "Gestão Publica e Cidadania" da FGV e Fundação Ford.

As ações atuais em Ribeirão Pires desenvolvem-se em 10 creches e atingem cerca de 900 crianças, Seus responsáveis chamam a atenção ao fato de que ao envolver todas as equipes das creches neste processo de reeducação alimentar desencadeou diversas ações:

Percepção da necessidade de um trabalho mais integrado na própria creche entre as equipes da cozinha dos educadores e da direção; da secretaria entre os vários departamentos: supervisão do trabalho educativo, serviço de merenda e a articulação do programa intersecretarias e com a sociedade civil para configurar uma política pública e para assegurar a continuidade das ações. A partir do projeto está sendo estabelecida parceria com a secretaria da Saúde para:

  • Trabalho de identificação e acompanhamento das crianças em grupos de risco. Este trabalho vai desde a criação de instrumentos de leitura, documentação estabelecimento de fluxos e rotinas inter secretarias para este atendimento. Neste processo sendo criados indicadores de avaliação como o funcionamento dos intestinos e o uso do banheiro, indicações de pele e de cabelo, número total de ocorrências médicas/mês, a redução no uso de medicamentos e do consumo de açúcar, etc.
  • Para o incentivo ao aleitamento materno. Hoje como a creche prioriza a vaga para a mãe que trabalha acaba colaborando com o desmame precoce, um vez que não tem um apoio organizado de incentivo à continuidade de aleitamento após o ingresso da criança na creche.
  • Para o acompanhamento e controle da situação da saúde bucal das crianças;

Entre os desafios ora postos encontram-se, justamente, o de criar indicadores de diagnóstico e avaliação e o de fazer um estudo de custo-benefício do programa e de fortalecer mecanismos de acompanhamento e controle pela sociedade civil de projetos e de ações de políticas publicas.

Outros exemplos mencionados foram uma avaliação efetuada pela Universidade de Brasília junto a três creches comparando as crianças que comiam a alimentação convencional e a enriquecida, revelando que as últimas apresentavam índices de incidência de cárie, de dentes perdidos, etc., bem inferiores aos das primeiras. Em relatório de Prefeitura do Município de Palhano no Ceará consta que a cozinha alternativa utilizando alimentação enriquecida provocou uma significativa redução no volume de gastos com a merenda escolar -de 70% para 20% do volume de recursos destinados a educação - e melhorou o rendimento escolar. Belo Horizonte é um exemplo de uso massivo da alimentação enriquecida, organizado efetivamente como parte das políticas de alimentação.

Os impactos da adoção da alimentação enriquecida são de distintas ordens, indo desde a evidente economia no orçamento doméstico até o combate ao desperdício e a redução na produção de lixo orgânico, passando pela valorização da importância dos micronutrientes no enfrentamento da chamada "fome oculta" que, mais além das crianças magras e dos bolsões de pobreza, envolve a alimentação inadequada. Na contramão da homogeneização criada pelo mercado, este enfoque procura resgatar hábitos regionais e alimentos tradicionais da cultura brasileira como o milho, a mandioca e hortaliças silvestres. Procurando valorizar o lugar que o ritual da alimentação sempre ocupou na vida dos povos, este enfoque contribui para a reflexão sobre padrões de produção e de consumo sustentáveis ao estabelecer as vinculações entre padrão alimentar, meio ambiente e saúde. Uma ótica de autonomia que substitui a da dependência das cestas básicas, promovendo a reeducação e o auto conhecimento, maior percepção e determinação sobre o próprio corpo, são ambos componentes da cidadania alimentar que o projeto de alimentação enriquecida pretende promover.

Nota - O lanche integral e enriquecido oferecido no evento teve o objetivo de possibilitar aos participantes uma vivência de saborear o quanto uma alimentação integral é saudável. Foi produzido por um grupo de mulheres da Casa de Solidariedade de Caieiras – SP, que está trabalhando com alimentação viva e enriquecida e geração de renda.
 

A Rede Mulher de educação tem desenvolvido atividades na área de segurança alimentar e de educação ambiental. Atualmente , a sócia-educadora e conselheira Ruth Takahashi está trabalhando com grupos de mulheres, da grande São Paulo com um projeto de REEDUCAÇÃO ALIMENTAR  e ALIMENTAÇÃO VIVA e ENRIQUECIDA. Cursos e oficinas estão sendo organizadas para compartilhar com as mulheres um outro jeito de cuidar da alimentação. É um desafio. Porque neste mundo moderno’,  com a falta de tempo para cuidar da alimentação entramos no consumo dos pré preparados, dos enlatados,  de fast food. Tudo isto vem sendo justificado como vantagens para a mulher, comodidades, facilidades, formas de ganhar tempo e etc,  mas hoje estamos cada vez mais doentes. E as doenças do mundo civilizado estão diretamente ligadas à qualidade e modo de preparar os alimentos. As receitas que transcrevemos abaixo são de alimentos produzidos pelas mulheres da CASA DE SOLIDARIEDADE DE CAIEIRAS, que vêm fornecendo lanches para eventos e encontros. São receitas que falam deste novo/velho jeito de nos alimentar, mostram um pouco os resultados que tem sido conseguido nesse trabalho com  as mulheres e os desafios que estão presentes.

 

Alguns dados sobre a mulher e a alimentação

  • As mulheres produzem mais da metade de todos os alimentos cultivados.

  • Em muitas regiões as mulheres se dedicam até cinco horas por dia para recolher lenha e água, e até quatro horas para preparar alimentos.

  • Desde os anos sessenta o número de mulheres que vivem abaixo da linhade pobreza aumentou cinqüenta por cento (50%), em comparação com os trinta por cento (30%) dos homens.

  • Mais de setenta por cento (70%) de 1300 milhões de pessoas pobres do mundo hoje, são mulheres.

  • As mulheres não recebem mais Do que cinco por cento (5%) dos recursos.

Princípios da sustentabilidade das mulheres em função da alimentação para todos:

  • Localização  e descentralização, em lugar de globalização e centralização da produção e distribuição.

  • Pacifismo, em lugar de atividades agressivas de dominação .

  • Reciprocidade e igualdade, em lugar de competição.

  • Respeito à integridade da natureza e suas espécies.

  • Seres humanos como integrantes e não dominadores da natureza.

  • Proteção da diversidade biológica e cultural, na produção e consumo.

  • Suficiência, em lugar de crescimento permanente.

  • Auto - abastecimento, ao invés de comércio global.

 

Alimentação viva e enriquecida  

Alimentação Viva é aquela que prioriza alimentos frescos, vivos como os brotos, integrais e orgânicos. São os alimentos biogênicos.

 

Alimentação enriquecida é aquela que trabalha:

  • Enriquecimento da alimentação cotidiana

  • Valorização dos alimentos regionais, rico em nutrientes: frutas , verduras e  grãos germinados  frescos, orgânicos e não transgênicos.

  • Aproveitamento integral dos alimentos: cascas, talos, raízes, sementes,  folhas, flores e frutos;

  • Preconiza o resgate das praticas tradicionais e regionais de alimentação, valorizando os produtos cultivados localmente.

   

Multimistura

Integra o conceito do enriquecimento alimentar e consiste no consumo de uma variedade de alimentos, de preferência os da época e da região. É rica em micro nutrientes e  é um ALIMENTO PARA TODA A FAMILIA.

   

RECEITAS

 

Suco de folhas  

(folhas de couve e/ou pitanga, acerola, chuchu, etc) com maracujá, limão ou abacaxi.

Ingredientes:

  • 1 litro de água

  • 2 folhas de couve

  • 1 folha de serralha

  • 2 folhas de dente-de-leão

  • 1 maracujá (ou 2, se for pequeno) ou 1 limão ou abacaxi

  • açúcar a gosto

Modo de fazer:

Bater primeiro as folhas no liquidificador. Coar e colocar os resíduos na sopa ou farofa. Bater o suco com o restante dos ingredientes, coar e servir.

 

Pão enriquecido com leguminosos e sementes

  • 1 Kg de abóbora madura, ou batata doce ou inhame ou cará ou mandioca crua

  • 1 kg de farinha de trigo

  • 2 tabletes de fermento

  • ½ copo de açúcar

  • ½ copo de óleo de girassol

  • 3 copos de água morna

  • 3 copos de farelo de trigo

  • 1 colher de sopa rasa de sal

  • Semente de gergelim ou linhaça ou girassol ou aveia laminada à gosto

Modo de fazer:

Liquidificar a abóbora em 02 copos de água, com açúcar, sal,  por último o fermento, somente para dissolvê-lo. Depois  estes ingredientes batidos  em uma bacia e acrescentar a farinha de trigo e o farelo de trigo hidratado anteriormente, à parte, com 1 copo de água quente. Amasse e sovar muito bem. Deixe descansar por 1 hora. Amassar novamente acrescentando as sementes ou aveia laminada hidratada. Após, modele os pães como quiser

Observação: Para roscas doces acrescentar mais meio copo de açúcar e óleo. Antes de assá-las preparar a cobertura com 1 gema, açúcar, óleo e acrescentar qualquer sementes ou aveia laminada. Deixar crescer até dobrar o volume colocá-los para assar em forno pré-aquecido.  

 

Pão semi-integral enriquecido com semente

  • 1 kg de farinha de trigo

  • ½ quilo de Farelo de trigo

  • 1 copo de óleo de girassol

  • 3 copos de água morna

  • 1 tablete de fermento

  • 1 colher de açúcar

  • 1 colherinha de sobremesa de sal

  • Semente de Gergelim ou linhaça ou girassol ou aveia laminada à gosto

Modo de fazer:

Liquidificar ou dissolver os ingredientes em uma bacia, acrescentar a farinha de trigo, o farelo de trigo hidratado, à parte com 1 copo de água quente. Amassar e sovar muito bem, deixando descansar por 1 hora. Amassar novamente acrescentando as sementes ou aveia laminada hidratada. Após modele os pães como quiser. Deixe crescer por 1 hora.

Observação: Para assar deve colocar os pães em forno pré-aquecido.

 

Mousse de maracujá ou limão enriquecida com suco de brotos ou sementes de linhaça

  • 3 maracujás ou limões

  • 1 gelatina sabor maracujá ou limão

  • 1 lata de leite condensado

  • 3 colheres de sementes de linhaça hidratada opcional

  • 100 gramas de brotos por exemplo de alfafa

Modo de fazer

Bater no liquidificador o maracujá coar as sementes, dissolver a gelatina com este suco, voltar para o liquidificador acrescentando os brotos, a  linhaça e o leite condensado. Colocá-los no refrigerador por 2 horas.

Observação: A quantidade de água recomendada na embalagem para dissolver a gelatina deverá ser substituída pelo suco extraído dos maracujás.

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