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A mulher operária: artesã da história, na "cidade sem lei"...

Monografria apresentada ao Departamento de História – ano 1999

Universidade de Sergipe
por Ana Maria Santos (*)
Orientadora: Profa. Mestra Neilza Barreto

Muitos trabalhos acadêmicos recebem apenas a crítica da poeira e das traças! E é para evitar tal frustração que venho a público informar, a quem se interessar pela temática de gênero e trabalho, a existência da minha monografia intitulada A mulher operária: artesã da história, na ‘cida-de sem lei’..., orientada pela professora Mestra Neilza Barreto.

Antes de falar propriamente do conteúdo, gostaria de historicizar um pouco a respeito da minha certeza em estudar a questão da mulher operária. Sempre me interessei por assuntos ligados ao gênero feminino, e isso foi se aprofundando à medida que vivia a experiência de ser operária. Daquele tempo, o que me marca mais é a lembrança do ritmo acelerado da produção e da exaustão do corpo.

Sabemos que toda delimitação do tema a ser estudado parte de uma opção do/a pesquisador/a, e como tal está mergulhada em subjetividades. Sendo assim, não nego a minha origem proletária e nem a minha formação feminista, cuja influência marcou a escolha e a maturação do objeto de pesquisa.

Mas o que trabalhar? Pois bem, o meu objetivo foi estudar as relações sociais e de produção que envolvem a mulher no processo produtivo de uma fábrica de confecção, a Coopervest. Essa escolha não se deu aleatoriamente, pois sua trajetória se mescla com a história da minha família. Significa dizer que a experiência de ter sido operária da Vila Romana (fábrica que antecedeu à cooperativa), da minha mãe ser cooperada e das minhas tias também terem sido, determinou a opção pela Coopervest como alvo do estudo.

Um outro elemento que contribuiu para minha decisão, foi o fato desta ter sido a primeira cooperativa em Sergipe, formada a partir da falência de uma fábrica capitalista, a Vila Romana. Todavia, a idéia de criação da Coopervest não surgiu dos/as operários/as, e sim dos empresários falidos que buscavam minimizar os prejuízos transferindo o ônus da proposta aos ex-funcionários, agora, os ‘novos donos’ que arcariam com as dívidas fiscais e bancárias.

Além disso, ao fazer a pesquisa exploratória, constatei que dentro da cadeia sucessória da fábrica estavam presentes as empresas Júnior, Unibras e Vila Romana. O mais interessante nisso tudo é que muitos homens e mulheres, atuais cooperados/as, passaram por todas essas fases. E seria uma tremenda ‘mancada’, para não dizer ‘burrice’, se eu perdesse a oportunidade de ouvir e registrar a experiência dessas operárias e operários.

E sendo assim, é que no primeiro capítulo faço uma revisão literária sobre a temática, apresento algumas questões a respeito da mulher na indústria e no operariado.

No segundo capítulo teço um breve comentário sobre a industrialização brasileira e sergipana, apresentando a criação do Distrito Industrial de Aracaju, relacionando-o à instalação das empresas Júnior e Unibras. O capítulo também dá conta da compra destas pelo grupo paulista Vila Romana e a falência dessa empresa em 1994. Aqui, através da fala das operárias e operários, já se pode ouvir o barulho das máquinas e do burburinho das conversas no refeitório, até mesmo sentir e mergulhar no labor desses sujeitos.

No terceiro capítulo, o mais denso, abordo o período de transição e cristalização da Coopervest. Retrato a participação do Sinditêxtil na formação da cooperativa, a exclusão do mesmo após a consolidação do processo; as dificuldades sentidas pelos sócios da cooperativa para manterem a fábrica em funcionamento. Analiso como as operárias da linha de produção se sentem confusas face às novas experiências vividas e as alterações nas relações sociais e de produção, e como o processo de alienação experimentado por essas operárias em empresas capitalistas, impregnou-as, ao ponto de cobrarem um gestor para suas atividades na fábrica e punições.

A respeito das conclusões deixo pa- ra serem descobertas a partir da leitura do meu trabalho, porém, posso adiantar que sobre a questão de gênero se evidencia a permanência das tensões entre homens e mulheres dentro da cooperativa, embora por vezes estejam encobertas sob uma camada superficial de cordialidade.

(*) Ana Maria Santos apresentou a monografia, na conclusão do curso de História. Tem interesse em intercambiar materiais referentes ao tema com outros/as pesquisadores/as. Pode ser contatatada pelos fones: (79)211-3579 e (79) 9135-8232